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ENTREVISTA

Na estrada

De passagem pela cidade com a turnê de Cê, seu álbum mais recente, o cantor e compositor baiano fala sobre o repertório que leva ao Citibank Hall

 

Por José Flávio Júnior

04.05.2007

 

Visto por pouquíssimos paulistanos, o show que Veja São Paulo apontou como o melhor de 2006 finalmente chega a uma casa de espetáculos de grande porte na cidade. A partir de sexta (11), Caetano Veloso canta os rocks do álbum no Citibank Hall, que terá configuração de platéia mista — dá para assistir sentado ou de pé, o que combina mais com o agitado repertório. Também estão no programa hits como London, London e Fora da Ordem, além da sempre bem-vinda Sampa, em arranjo que destaca a guitarra do escudeiro Pedro Sá. Por e-mail, Caetano conversou sobre as apresentações e ainda deu uma dica do que deve aprontar no próximo disco.

Divulgação


Veja São Paulo —
A cidade de São Paulo se faz presente tanto no álbum (citada na faixa Odeio) quanto no show de (que traz o sucesso Sampa no roteiro). Por que o espetáculo passou por tantas capitais antes de estrear aqui (desconsiderando os dois concertos no Sesc Pinheiros, em dezembro, que foram anunciados em cima da hora e tiveram seus ingressos esgotados rapidamente)?

Caetano Veloso — São Paulo é a cidade do tropicalismo. Guilherme Araújo, Gil e eu vimos, em 1966, que só em São Paulo uma empreitada cosmopolita e anti provinciana como aquela poderia ter lugar. São Paulo é a terra dos Mutantes. Não podia estar fora de . Estreamos o show em Brasília, com um espetáculo único. Repetimos a dose em Belo Horizonte e Porto Alegre. Fizemos duas noites no Circo Voador, no Rio, e duas no Sesc Pinheiros, em Sampa. Não sei por que você desconsidera os shows do Sesc. O Circo Voador também é pequeno.

Veja São Paulo — O roteiro pré-definido do show de não tira um pouco do clima espontâneo e improvisado que ele poderia ou deveria ter?

Caetano Veloso — Gosto de fazer meus shows como se fossem filmes. Há sempre rimas de idéias, seqüências de músicas que se espelham em outras, palavras de canções que encontram eco em timbres escolhidos para arranjos que surgirão em canções diferentes mais tarde etc. Essas relações me estimulam. Para isso é bom ter um roteiro estruturado. Não há nenhuma razão para que o show de seja mais improvisado do que os outros que venho fazendo. Shows de free-jazz supostamente são improvisados. Os de pop e de rock, em geral, têm um roteiro. Ou você acha que os mega-shows do U2, do David Bowie ou dos Stones não têm roteiro pré-estabelecido? Seja como for, o nosso show não é rígido, sempre pode haver alguma variação no repertório. Em Natal, comecei a cantar Cajuína sem nem combinar com os músicos. É que, na hora, me lembrei que ia a Teresina no dia seguinte, havia dezesseis anos que não voltava lá, e tem aquele verso da "lágrima nordestina" e pensei em como sinto Natal como sendo o Nordeste em estado puro. Aí cantei Cajuína. A banda logo me seguiu. Nunca tínhamos ensaiado essa música. Mas o roteiro fixo contribui para essa espontaneidade. Sem presunção, ele funciona para mim como se fosse um poema. E isso me inspira cada vez que faço o show.

Veja São Paulo — Dentre os relatos de pessoas que assistiram a shows da nova turnê, os mais entusiasmados parecem vir de quem esteve no Circo Voador, em dezembro, quando a configuração pista prevaleceu na platéia. Por que não repetir algo do tipo em São Paulo? Paulistano precisa de cadeira confortável para apreciar a música de Caetano?

Caetano Veloso — No Circo Voador foi festa. Mas quem viu lá e depois viu no Vivo Rio ficou impressionado com a estrutura do show se revelando: o roteiro, o cenário, a luz, os arranjos, o som – tudo isso aparece com clareza. Alguns não sabiam dizer o que era melhor. Eu próprio gostei dos dois tipos de experiência. Nada impede que qualquer dia desses a gente faça um "assustado" num Na Mata Café da vida.

Veja São Paulo — Recentemente, um programa da MTV perguntou para jovens da audiência, jornalistas e músicos se "Caetano Veloso tinha mandado bem fazendo um disco de rock". É frustrante perceber que, mesmo com toda a sua discografia disponível nas lojas, há pessoas que tratam como sua primeira experiência com o rock? Ou será que foi apenas o conceito de rock que mudou?

Caetano Veloso — O conceito de rock mudou muito. Quando os baianos tropicalistas defederam criticamente o rock e passaram a usar elementos de rock em seus arranjos e composições, o rock era esnobado. Agora o rock é que esnoba. Melhor assim. O disco é um disco de banda. Foi concebido como um disco de banda. Canção e arranjo nascem juntos. Isso o aproxima dos discos de rock. É minha voz, é um disco meu, mas é como se fosse uma nova banda, com seu estilo, seu timbre, seu repertório. A reação dos comentaristas e dos músicos de rock que conheço foi muito menos hostil do que eu poderia esperar. Na verdade foi mais realista em relação ao meu histórico do que quando lancei (os discos) Velô ou Muito.

Veja São Paulo — A platéia paulistana já perceberá algum indício de seu próximo lançamento fonográfico durante o show? Ouvir os barulhos da guitarra de Pedro Sá na introdução do rock Odeio em tantas apresentações te afastou ou aproximou mais do almejado disco de samba?

Caetano Veloso — Planejei os arranjos de Rock’n’Raul (do disco Noites do Norte) e de Come as You Are (do A Foreign Sound) com Pedro Sá. Foi também a ele que pedi para fazer aquela "batucada" na guitarra em Brasil Pandeiro, no show de A Foreign Sound. Esse pedido nasceu do que eu ouvia Pedro e Davi Moraes fazerem nas guitarras durante os ensaios de Noites do Norte. No show do , Pedro faz algo do tipo em Musa Híbrida e em Desde que o Samba é Samba. Quando a gente acaba de fazer um disco, pensa logo em outros. Quando a gente está em excursão com um show, procura não pensar planos futuros, para manter a concentração. Ao terminar de gravar , tive logo vontade de fazer outros discos com a mesma banda. Aquela vontade de pôr para funcionar uma engrenagem que agora você já conhece melhor. Agora, na excursão, reprimo isso. Mas não deixa de pintar idéia de samba em guitarras com Pedro e Davi.

>> Leia a crítica em Vejinha


CAETANO VELOSO.  16 anos. Citibank Hall (1.950 lugares). Avenida dos Jamaris, 213, Moema, 6846-6040. Sexta (11) e sábado (12), 22h; domingo (13), 20h. R$ 60,00 a R$ 160,00. Bilheteria: 12h/20h (seg. a qui.); a partir das 12h (sex. a dom.). Cc.: todos. Cd.: V e R. Fnac, TM. Estac. (R$ 15,00; c/manobr., R$ 20,00).

 
 
 
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