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PERFIL

Cúmplice da cidade

25.10.2007

Em 39 anos de uma carreira premiada, o fotógrafo
Cristiano Mascaro mostra em exposição uma
São Paulo que poucos percebem

 

Por Gisele Kato

Fernando Moraes

Cristiano Mascaro

Cristiano Mascaro no escritório que montou em casa: o fotógrafo ainda não se rendeu às câmeras digitais. "Nada se compara à expectativa de trabalhar um dia inteiro e só depois ver o resultado, impresso em papel."

Cristiano Mascaro, 62 anos, mora em um condomínio perto da Granja Viana, a 20 quilômetros da capital. A princípio, o endereço soa como uma contradição. Afinal, um fotógrafo pode registrar tão bem uma cidade sem viver nela? Mas a distância só ajuda o paulista de Catanduva a enquadrar melhor as cenas da metrópole. Longe da ebulição urbana, ele se surpreende com São Paulo toda vez que a avista, ainda do carro, na Rodovia Raposo Tavares. Em cada foto em preto-e-branco da carreira de quase quatro décadas, percebe-se o domínio pleno do cenário. Parece que a cidade não conseguiu engolir o fotógrafo. O que não significa que haja algum tipo de embate entre o artista e sua musa. "Sempre me perguntam se sou um apaixonado por São Paulo. Não gosto muito de expressões assim, soam como clichês", diz ele. "O que acontece é que me sinto cúmplice da cidade. Ela me satisfaz e eu a perdôo de todos os seus pecados."

Homenageado pelo conjunto da obra na edição deste ano do Prêmio Porto Seguro Fotografia, Mascaro tem sete livros lançados e integra alguns dos mais importantes acervos do mundo, como o do Centro Georges Pompidou, de Paris, e o do Masp. As onze fotos reunidas na exposição que abre na terça (30), no Espaço Porto Seguro Fotografia, de certa forma, resumem sua trajetória. Formado em arquitetura pela FAU-USP, em 1968, ele se descobriu fotógrafo na redação da revista VEJA, no mesmo ano. Entre os cartões-postais particulares, destaca a Avenida São João: "Cresci subindo e descendo essa rua. Sinto saudade do barulho da sola do calçado de couro batendo na calçada", conta. O tom saudosista, no entanto, pára por aí. Nada seduz mais o fotógrafo do que as transformações da cidade. Ele chama essas metamorfoses constantes de "canto das sereias", tão irresistível que sempre o impede, por exemplo, de chegar a um destino previamente programado.

Apaixonado pelas luzes das primeiras horas da manhã ou do entardecer, Mascaro deixa-se enfeitiçar com facilidade e faz nesses desvios de caminho as suas mais queridas imagens. A maioria é obtida com uma lendária máquina sueca Hasselblad, a mesma que foi com o homem para a Lua e que muitos colegas de profissão evitam por causa do formato quadrado. A seguir, as histórias de sete fotos preferidas de Mascaro (duas delas estarão na exposição) que lhe renderam a alcunha de "fotógrafo da capital".

PRÊMIO PORTO SEGURO FOTOGRAFIA. Espaço Porto Seguro Fotografia. Alameda Barão de Piracicaba, 740, Campos Elíseos, 3366-8262. Terça a domingo, 10h às 18h. Grátis. Até 26 de novembro. A partir de terça (30).


Sobre o Minhocão, 1986:
"Este edifício fica perto da Praça Marechal Deodoro e sempre me atraiu por causa dos detalhes da fachada. Fiz a foto no fim da tarde, e a luz rasante contribuiu muito para a nitidez dos elementos da arquitetura. Num primeiro momento, pensei em registrar só o prédio. Depois, percebi que, se pegasse um carro passando na frente, a composição sairia mais interessante. Até que, de repente, surgiu um senhor em uma lambreta. Acho que esse é um caso típico de conjunção das coisas para uma boa imagem."


Escadas rolantes, 1983:
"Esta era uma galeria bem decadente do centro, ao lado da Galeria do Rock. Lembro que as escadas rolantes não estavam funcionando e subi todos os andares com uma mochila de 12 quilos de equipamento nas costas. Quando vi o desenho que formava lá de cima, veio aquela sensação de esforço recompensado. Valeu muito a pena. Só que lá do alto eu não conseguia usar o tripé. Tirei a foto sem poder enquadrar direito a cena, equilibrando-me na grade, e, de um jeito impressionante, saiu tudo absolutamente simétrico."


Posto de gasolina, 2000:
"Vendo esta foto hoje, percebo uma grande influência do pintor americano Edward Hopper, que eu adoro. Mas não pensei nele na hora. A imagem é um exemplo de quanto eu me deixo levar pela cidade e quase nunca chego ao lugar programado. Eram 5 da manhã quando entrei na Marginal Pinheiros. Ia para a Guarapiranga, mas não resisti às luzes deste posto de gasolina, próximo ao Jockey Club. Acho que parece uma nave pousando."


Edifício São Vito, 2003:
"Quase fui assaltado nesse dia. Uns meninos me cercaram e ameaçaram jogar minha câmera no rio. Fiquei tenso. Mas ganhei a confiança deles quando mostrei que não estava ali para registrar o que deviam estar fazendo de errado. Para conseguir estacionar o carro e clicar fotos como esta, comprei um cone de plástico, como os que a CET usa. Encosto e sinalizo como se o veículo tivesse enguiçado. É certamente uma atitude irresponsável, mas em benefício de imagens assim."


Viaduto Maria Paula, 1983:
"Me fascina aguardar o exato momento em que tudo da cena se encaixa e adquire harmonia. Esta foto foi feita bem em frente à Câmara dos Vereadores. No começo da carreira, eu acreditava que os elementos da cidade, como postes e fios, eram obstáculos para uma bela imagem. Depois, descobri que essa desordem é o máximo. Hoje, incorporo a confusão na obra. Se a calçada não tivesse remendos, por exemplo, a foto não teria a menor graça. O crítico Antonio Candido comparou esta cena a um tecido riscado pelas sombras."


Avenida São João, 1983:
"Caminhei muito por esta rua quando era garoto. O primeiro filme que eu vi foi lá, no Ritz São João: O Príncipe e a Parisiense, com a Brigitte Bardot. A avenida tem uma posição com relação ao sol que é muito interessante. Praticamente forma uma caixa de luz entre os prédios. Também gosto da foto porque capta os diversos tons de cinza da cidade. É uma imagem que só se consegue fazer quando o ar está bem poluído. Para mim, ar muito limpo não serve!"


Turista Hotel, 1998:
"Como retratar a mobilidade paulistana sem ir aos lugares óbvios, como rodoviárias e aeroportos? A cena é no Viaduto do Gasômetro, no Brás. Madruguei para ver a cidade acordando e deparei com este senhor solitário, diante do luminoso em neon. Gosto da luz e da idéia de uma cidade que acolhe tudo e todos."


 
 
 
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