Com apetite na hora de reajustar os cardápios, restaurantes chegam a aumentar o preço de seus pratos em até sete vezes acima da inflação
– Eu acho que esse rapaz é casado! Se não, porque não dá o endereço?
Minha prima não foi e nunca mais viu o moço. Nem arrumou novo pretendente.
Muitas famílias torciam para ter uma solteirona disposta a cuidar dos pais. Tinha a missão de viver com eles, ajudar na velhice. Quando os dois morriam, tornava-se um trambolho. Os irmãos alegavam que não havia espaço para ela, que acabava jogada de um lugar para outro, sempre de mala na mão. Ou morando com um parente distante – em geral uma velha, de quem também cuidava.
Na vida paulistana, essa figura sumiu. Claro, muita mulher não se casa. Nem por isso vive o estereótipo da solteirona. Uma amiga minha teve vários relacionamentos. É uma linda mulher, mas chegou à faixa dos 40 sem se casar. Mora com os pais, a quem adora. Fez recentemente uma nova faculdade, tornou-se uma profissional respeitada. Há algum tempo, o fato de não ter se casado seria visto como um estigma. Hoje é até invejado por algumas amigas.
– Que sorte, você é independente!
Ela está muito feliz. E resolveu adotar uma criança.
– Vou ser vovô – contou o pai dela, feliz da vida.
Pois é. A antiga solteirona transformou-se em mulher independente. Pode até cuidar dos pais, se a relação é boa. Mas não é vista como uma fracassada porque não arrumou marido. Nem como um trambolho. Pelo contrário. Conheço uma senhora, médica, que por ser sozinha guarda a maior parte do que ganha, usa roupas de grife e é invejada pela irmã. É ela quem ajuda a outra, em litígio com o ex-marido e com a vida profissional estacionada após um longo casamento. Essa figura tão comum na metrópole namorou, beijou, mas, como diz uma amiga, "não tem vocação para lavar cuecas". De fato, enquanto boa parte das casadas enfrenta a dupla jornada de trabalho, em casa e no emprego, as outras saem com as amigas, vão a shows e se dão ao luxo de deixar o apartamento desarrumado quando têm preguiça.
E a velhice? A maioria terá feito uma boa poupança, e poderá viver com conforto. Mesmo porque, hoje, lamentavelmente, filhos não são mais garantia de ter quem cuide da gente na velhice. Muitos pais idosos passam o tempo tentando arrumar a vida de filhos descabeçados.
A boa notícia é que essa nova mulher, sozinha mas não solitária, não está condenada a ser um estorvo para os parentes. Tem vida própria. Pode cuidar dos pais, mas por opção. E se dá ao luxo de namorar até pela internet, sem viver eternamente buscando casamento por sentir a obrigação de ostentar uma aliança no dedo. A solteirona do passado viveu uma reciclagem. Marido não é mais fundamental. Felicidade, sim. Graças a Deus.