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TEATRO

Cada um com suas manias

A comédia Toc Toc diverte ao abordar o transtorno
obsessivo-compulsivo, um problema que atinge
cerca de 1% dos paulistanos

 

Por Dirceu Alves Jr.

15.10.2008

 

Fotos Piu Dip

A sala de espera de um consultório médico: excentricidades no palco

A sala de espera de um consultório médico: excentricidades no palco

Desde a segunda semana de maio, 20 000 espectadores já se divertiram com um tema difícil de despertar graça. Pelo menos para aqueles que o vivem. Escrita pelo dramaturgo francês Laurent Baffie, a comédia Toc Toc traz à cena seis personagens portadores de TOC, o transtorno obsessivo-compulsivo. Dirigida por Alexandre Reinecke, a peça, em cartaz no Teatro Gazeta e sucesso em Paris desde 2005, aborda com humor uma questão que marca diretamente a rotina de cerca de 110 000 paulistanos. Trata-se de um distúrbio que se manifesta por meio de uma série de excentricidades e manias cultivadas no cotidiano. O cantor Roberto Carlos e a atriz Luciana Vendramini são exemplos de personalidades que assumiram seus tiques. No caso de Roberto, tornaram-se famosas manias como sair de um ambiente pela mesma porta pela qual havia entrado, não usar nada de cor marrom e evitar palavras de conotação negativa.

Os sintomas da doença começam a se manifestar por volta dos 13 anos e os pacientes levam, em média, até dezoito para receber um tratamento adequado. Os protagonistas de Toc Toc apresentam o distúrbio em diferentes graus, assim como a maioria dos portadores. Branca (vivida pela atriz Márcia Cabrita) é maníaca por limpeza, enquanto Lili (Flávia Garrafa) tem o hábito da repetição e Vicente (o ator Marat Descartes) não pára de fazer cálculos. Obcecado por simetria, Bob (Sérgio Guizé) jamais pisa sobre alguma listra e Fred (Riba Carlovich) tem a chamada síndrome de Tourette, que o leva a falar obscenidades o tempo todo. Para completar, a religiosa Maria (papel de Ângela Barros) acredita que sempre esqueceu tudo aberto, da porta de casa ao gás. Todos eles se encontram na sala de espera de um consultório médico. É de rolar de rir.

Branca, a personagem vivida por Márcia Cabrita, é maníaca por limpeza

Branca, a personagem vivida por Márcia Cabrita, é maníaca por limpeza. A professora Sonia Morales, que foi assistirà peça, sabe bem o que é isso. "Passava quatro horas lavando as mãos. Ficavam em carne viva", relembra ela.

Curioso para saber como ficou no palco o tema que estuda há quatro anos, o psicólogo Nil Morais levou alguns pacientes ao teatro. "A apreensão inicial do grupo foi logo substituída pela identificação com as cenas vividas pelos atores", afirma. A professora Sonia Morales, 48 anos, não disfarçou o choro durante a sessão e procurou os atores para dividir a emoção. "Por muito tempo fui tratada como louca e só encontrei um diagnóstico aos 38 anos, depois de largar a faculdade e perder o marido", conta ela, que, entre suas manias, tinha obsessão por limpeza.

Psicóloga, a atriz Flávia Garrafa conseguiu unir suas duas profissões

Psicóloga, a atriz Flávia Garrafa conseguiu unir suas duas profissões na composição de Lili, que sofre com o hábito da repetição: "A personagem traz um comportamento regredido, tal qual uma criança que repete tudo para aprender".

Seu caso não é isolado. Aproximadamente 60% dos portadores de TOC não se casam ou não conseguem manter-se ao lado de um cônjuge. Mais de 15% abandonam o trabalho e se mostram incapazes de ter uma ocupação. Preocupada com os efeitos que pequenos tiques trariam ao futuro de seu filho, André, então com 14 anos, a gerente administrativa Cristina de Luca procurou informações sobre o assunto. Ela se uniu a outras três mães com dramas semelhantes e em 1996 fundou a Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (Astoc), uma entidade sem fins lucrativos de apoio a familiares e portadores da doença. "Quem tem TOC é plenamente consciente de que suas ações não fazem sentido, mas não consegue se controlar, e, por isso, precisamos divulgar o problema", diz ela. Hoje, aos 28 anos, André, que ainda não conseguiu assistir ao espetáculo, lamenta. A razão em nada lembra seu passado, quando quase perdeu um ano escolar ou levava horas diante de uma refeição ao estabelecer um número – sempre par – cada vez maior na hora da mastigação. Engenheiro eletrônico de uma empresa com forte atuação no Norte e no Nordeste, o rapaz passa praticamente todos os fins de semana fora de São Paulo. "Fiz dois anos de tratamento, criei autoconfiança e agora posso dizer que meu problema está controlado."

Fred (o ator Riba Carlovich) tem a síndrome de Tourette

Fred (o ator Riba Carlovich) tem a síndrome de Tourette, que o leva a dizer palavras obscenas o tempo todo. Leituras do texto foram acompanhadas por psicólogos para encontrar a melhor abordagem.

Fanático por limpeza, o publicitário Marcio Pitliuk, 55 anos, jamais abre uma torneira ou a porta de um banheiro sem o auxílio de um lenço ou papel. Tocar em corrimão, nem pensar, e sempre que aperta a mão de alguém, mesmo de um amigo, volta a se lavar. Pitliuk, por sua vez, nunca sentiu sua rotina agravada nem procurou um tratamento específico. "Faço terapia para evitar depressão e, de vez em quando, sinto minha mulher um pouco irritada comigo, mas nada que me impeça de levar a vida." Constantemente desafiado pela matemática, ele realizou-se na estréia de Toc Toc, ainda no Teatro Cultura Artística, destruído por um incêndio em agosto. "Fiquei calculando o número de poltronas ocupadas, o preço do ingresso e quanto seria a receita da sessão", lembra ele, que, mesmo antes das gargalhadas da platéia, concluiu que engrossava o número de espectadores de uma peça de sucesso.

Bob, interpretado por Sérgio Guizé, não pisa sobre listras

Bob, interpretado por Sérgio Guizé, não pisa sobre listras. O engenheiro eletrônico André de Luca já sofreu por isso. "Também levava horas diante de uma refeição mastigando centenas de vezes, sempre em números pares."


 
 
 
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