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Mestre da afinação

Das mãos do luthier paulistano Murilo Ferreira saem violões e guitarras que brilham nos palcos

 

Por Giovana Romani

| 19.11.2008

 

 

Fotos André Conti e Leo Feltran
Criador e criaturas: Ferreira, com um de seus instrumentos (à dir.), e o violão que Tom Zé (à esq.) pediu que ele restaurasse

 

Na próxima sexta (21), o cantor Tom Zé traz seu novo show, Estudando a Bossa, ao Auditório Ibirapuera. Um de seus números foi ensaiado com dose extra de afinco. Enquanto interpreta a canção O Céu Desabou, o músico desmonta seu violão, pedaço por pedaço. Transforma as tarraxas em brincos e o tampo em percussão. "Todos na platéia se emocionam com a cena", conta. A mirabolante idéia virou realidade graças ao trabalho do paulistano Murilo Ferreira, de 42 anos. "Aceitei o desafio na hora", diz ele, com a confiança que costuma vir de muitos anos de experiência. Ferreira é luthier, aquele profissional que constrói instrumentos de corda artesanalmente. Seu avô, Ulisses Ferreira, começou a trabalhar na área em 1921, na extinta Rei dos Violões. Depois, tornou-se funcionário da tradicional fábrica Giannini, de onde saiu, em 1952, para montar seu próprio negócio – a Atlas. Localizada no Bom Retiro, a empresa chegou a ter sessenta funcionários e ganhou destaque nos jornais da época. Como manda a tradição, Ulisses passou a técnica ao filho, Guaracy, que, por sua vez, fez o mesmo com Murilo. Há quarenta anos a oficina da família fica na Rua Turiaçu, em Perdizes.

Entre os clientes fiéis, além de Tom Zé, estão Roger, do Ultraje a rigor, Supla e os garotos das bandas NX Zero e Fresno. "Sabe como é, a gente vai ficando famoso no meio artístico", afirma Murilo, que não economiza em marketing. Deu, por exemplo, uma guitarra de presente a An-dreas Kisser, do Sepultura, um dos maiores solistas do país. Inspirado num modelo usado por Brian May, do Queen, o instrumento levou oito meses para ficar pronto. Custou 7 000 reais. "Nas guitarras do Andreas só eu ponho a mão", orgulha-se o luthier. Muitos candidatos ao estrelato batem ponto em sua oficina. Jovens com tatuagens, jeans justos e camisetas estampadas no melhor estilo rock’n’roll levam suas guitarras das marcas Fender e Gibson para o mestre consertar. Cerca de 100 instrumentos são restaurados por ele todo mês – apenas três ou quatro guitarras e violões são confeccionados por ano. Todos ganham o logotipo com a letra M dentro de uma palheta. "Quem encomenda quer uma peça artesanal, exclusiva." Ferreira domina todo o processo, do corte da madeira à pintura. Aos poucos, tem passado seus conhecimentos ao filho, Murilinho, que aos 19 anos representa a quarta geração da família a viver em meio a violões e afins. O rapaz já faz pequenos serviços na loja e toca numa banda de metal. Sua guitarra, claro, é uma legítima Murilo Luthier.

 

Antes do primeiro acorde

Como se constrói uma guitarra, passo a passo

 

Fotos Leo Feltran 

 

1 O pedaço de madeira de 67 centímetros de comprimento, retirado da árvore bordo, é modelado com uma faca. Daí sairá o braço da guitarra

  

 

2 Faz-se uma canaleta em toda a extensão do braço. Ali dentro será instalado um tensor, que estabiliza a madeira caso ela sofra alterações devido a mudanças de temperatura, por exemplo

  

 

3 Com uma serra de São José, o luthier modela a parte conhecida como corpo da guitarra. Nesse caso, a madeira é o cedro-rosa

  

 

4 Um molde retangular é utilizado para marcar o exato local em que será colocado o captador. A peça tem a função de transformar as ondas mecânicas produzidas pelas cordas em ondas elétricas

  

 

5 São necessárias cinco lixas de espessura diferente para alisar a superfície do instrumento. A lixa mais fina (foto) é a última

  

 

6 Depois de o captador ser instalado, ainda restam os ajustes finais, como a colocação das cordas e a afinação do instrumento. O processo todo demora quatro meses. Uma guitarra assim custa a partir de 5 000 reais, vinte vezes mais que um modelo sem grife

 


 
 
 
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