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Turismo

Passeio do outro mundo

Embarcamos em uma excursão por pontos "mal-assombrados" de São Paulo

 

Por Giovana Romani

| 19.11.2008

 

 

Fotos Mario Rodrigues
Mausoléu em estilo gótico no Cemitério da Consolação: explicações sobre arte tumular

 

Toc, toc, toc. Por via das dúvidas, antes de embarcar em uma excursão repleta de histórias de espíritos e assombrações, é melhor tentar proteger-se dos maus agouros. Às 14 horas do último domingo – debaixo de um calorão de fazer inveja ao Coisa-Ruim –, dezessete bravos caça-fantasmas partiram do Largo do Arouche rumo a uma jornada macabra. Batizado de São Paulo Além dos Túmulos, o passeio turístico cobre pontos paulistanos com memórias de arrepiar. "Temos uma proposta cultural", diz Carlos Roberto Silvério, dono da Graffit Turismo, empresa que promove o tour. "Mas todos se divertem bastante."

Castelinho da Rua Apa: palco de três mortes

 

Entre os passageiros, nada de góticos, fãs de vampiros e afins. Grande parte das pessoas está motivada pela simples curiosidade de saber mais sobre o outro mundo. "Temos a necessidade de materializar as lembranças dos que já morreram", afirma a estudante Jaqueline Monteiro, que finaliza uma monografia sobre turismo macabro e veio de Quissamã, no estado do Rio de Janeiro, só para participar da excursão. A primeira parada do ônibus, decorado com tule branco e insetos de borracha, é a casa onde viveu Sebastiana de Mello Freire, na Rua Major Diogo, na Bela Vista. Dona Yayá, como ficou conhecida, foi considerada louca e permaneceu confinada ali entre 1925 e 1961. Hoje, o local abriga um centro cultural. Reza a lenda que vizinhos costumam ver um vulto vestido de branco passeando nos jardins da mansão.

Capela dos Aflitos, na Liberdade: ali ficava um cemitério para indigentes, criminosos e escravos

 

Impressionados com a história de dona Yayá, os passageiros passaram a atribuir todo e qualquer barulho do ônibus a seu espírito, que estaria acompanhando a viagem. O silêncio toma conta do veículo tão logo chegamos ao próximo destino. Estamos em frente ao Edifício Joelma, cenário do mais trágico incêndio de São Paulo. Em 1974, 188 pessoas morreram – algumas saltaram em pânico – e 345 ficaram feridas. A descontração é restabelecida quando o grupo aporta no Cemitério da Consolação. Durante a visita, a guia Ângela Arena dá explicações sobre arte tumular. No túmulo da patronesse do movimento modernista Olívia Guedes Penteado, por exemplo, ela mostra a escultura Sepultamento, de Victor Brecheret, premiada no Salão de Outono de Paris de 1923. "Muitas vezes temos de parar a andança por causa de um cortejo fúnebre que passa por nós", conta o monitor Felipe Becker. Cinqüenta minutos depois, de volta ao ônibus, observamos o Teatro Municipal – cujos pianos tocariam sozinhos na calada da noite – e o Viaduto do Chá. "Ele também é conhecido como o ‘suicidório’ municipal", brinca a guia Ângela, com dose extra de humor negro.

Casa de dona Yayá, na Bela Vista: considerada louca, ela ficou mais de trinta anos presa

 

São quase 17 horas. O Beco dos Aflitos, no bairro da Liberdade, é a penúltima parada. Próxima ao antigo Largo da Forca, a ruela abriga a Capela dos Aflitos. Ali ficava um cemitério onde, até 1858, eram enterrados indigentes, criminosos e escravos. O último destino é um castelinho em estilo medieval na esquina da Avenida São João com a Rua Apa, no centro. Em maio de 1937, os irmãos Álvaro e Armando Reis, além da mãe deles, Maria Cândida, foram encontrados mortos na residência da família. Álvaro foi acusado de se suicidar após assassinar os parentes. Desde então, o castelo permanece jogado às traças – ou aos fantasmas que o rondariam.

Fim da viagem. As "almas penadas" podem descansar em paz, já que o próximo tour está marcado só para o dia 14 de dezembro. Silvério planeja uma nova versão do roteiro em 2009. "Há lugares fora do centro expandido cheios de casos sinistros", afirma. Toc, toc, toc.

• São Paulo Além dos Túmulos. Graffit Turismo. Rua Carlos Petit, 391, Vila Mariana, 5549-9569. R$ 30,00. www.graffit.com.br.

 


 
 
 
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